A empatia no Ciberespaço e a Fatiga de Zoom

Eram 16 horas de uma sexta-feira de uma semana agitada de trabalho, com muitas reuniões por videoconferência. Com minhas duas telas, que uso diariamente para ampliar o número de coisas que consigo olhar em simultâneo, estava totalmente engajada em uma atividade quando senti meu olho esquerdo se manifestando de uma forma estranha. Minha pálpebra estava movimentando-se involuntariamente! A sensação é que havia um mosquitinho entre minha pálpebra e o globo ocular. Fiquei preocupada. Me perguntei: será que é sintoma da covid-19? Será AVC? Em tempos de isolamento social a paranoia alcança níveis alarmantes. Me preocupei, mas não fui ao médico. Um mosquitinho no olho não valia o risco de enfrentar os hospitais lotados, pensei. 

Então me lembrei de um estudo que um colega de trabalho compartilhou no chat durante um evento (online) que organizamos em março sobre formas eficientes de se utilizar ferramentas digitais colaborativas e engajar o público durante as atividades no trabalho remoto. Era um estudo, publicado na página da Stanford News, que investigava as causas para o que chamou de “Fatiga de Zoom”. Essa fatiga se refere não somente às videoconferências na popular e eficiente plataforma Zoom, mas à experiência em qualquer plataforma digital utilizada para a mesma finalidade: comunicação em tempo real com áudio, vídeo e, às vezes, compartilhamento de tela simultâneos. 

Nesse estudo, o professor e diretor fundador do Laboratório Virtual de Interação Humana de Stanford (Stanford Virtual Human Interaction Lab – VHIL) Jeremy Bailenson, que estuda as consequências psicológicas de se passar horas e horas por dia nessas plataformas de videoconferência, analisou os aspectos técnicos desses aplicativos e identificou quatro consequências do uso prolongado desse meio de comunicação remota que podem estar contribuindo para a fatiga de seus usuários. São elas: 

  •   Excesso de contato visual: em uma reunião de trabalho, palestra ou sala de aula com todos no mesmo local físico, as pessoas não ficam tão intensamente concentradas no locutor ou apresentador. Elas, ouvem, anotam, interagem com colegas, olham para a janela e objetos ao redor, voltam a olhar para o locutor e assim seguem. Na videoconferência, as pessoas estão se olhando o tempo todo. Se você é o locutor, você tem maior percepção dos olhares voltados para você do que em uma reunião presencial, o que pode causar mais desconforto, stress e ansiedade, pois aumenta a concentração de energia depositada nessa tarefa. Em reuniões virtuais entre duas pessoas (one-on-one) o desconforto é ainda maior. Dependendo da tela ou monitor utilizado, o rosto da pessoa parece tão próximo que sentimos que fomos colocados em um contato mais íntimo do que precisaria. Segundo Bailenson, quando um rosto está tão próximo do nosso na vida real, o cérebro interpreta como uma oportunidade de conexão sexual ou de conflito, o que gera stress. 
  •   Vermos a nós mesmos o tempo todo em vídeo é fatigante: ter tanto contato com nossa própria imagem durante uma interação com o(s) outro(s) não é algo natural. Então, além de se manter concentrado nas variáveis presentes como o conteúdo falado ou compartilhado em tela, as expressões das pessoas e a comunicação não verbal, mais uma variável se apresenta, que é a autoimagem. Isso pode potencializar sentimentos de auto-crítica e emoções negativas em um nível que não existe no contato presencial, o que também contribui para essa fatiga geral, como reforça Bailenson. 
  •   As video-conferências reduzem consideravelmente nossa mobilidade: em reuniões presenciais nos movemos, levantamos para pegar água, esticar as pernas e, como apresentadores, enquanto falamos, andamos pela sala, sentamos, escrevemos em um quadro, apontamos para objetos, vamos de mesa em mesa para ver a evolução de alguma atividade em grupo em um workshop, entre outras ações. Em chamadas remotas, muitas vezes, estamos limitados à cadeira em frente à câmera. Baileson diz que quando as pessoas se movem, elas têm um desempenho cognitivo melhor.
  • E por último, em videochamadas, o esforço cognitivo é maior que em contatos presenciais: em uma interação presencial, a leitura e percepção da comunicação não-verbal é algo que ocorre de forma natural. Nas videochamadas precisamos nos esforçar mais para transmitir e receber sinais não-verbais. Exageramos os gestos afirmativos e negativos de cabeça e com os polegares (não sem antes certificar que nossa imagem esteja bem enquadrada), o que nos consome mais energia cognitiva do que em uma comunicação presencial. 

Esses fatores são relevantes em todas as formas de tele-trabalho atuais, em qualquer ciberespaço profissional, seja sala de aula, reuniões de trabalho, atendimento clínico médico e psicológico entre outros. Como dicas para tentar contornar essa sobrecarga cognitiva, pode-se seguir algumas ações simples como estas a seguir: 

  • Redimensionar a janela do aplicativo ou o enquadramento dos rostos dos participantes de maneira a vê-los em um formato menor, o que contribui para a manutenção e reserva do seu próprio espaço, não se sentindo tão observado de perto.
  • Quando não estiver falando, utilizar a opção de ver apenas o conteúdo e o rosto do apresentador, para reduzir o tempo da variável “olhar para mim mesmo e julgar minha aparência”. 
  • Se a câmera for desacoplada do computador, colocá-la mais afastada para que tenha mais mobilidade durante suas falas. Se possível até para se levantar ou andar enquanto se expressa.
  • Se o contexto permitir, fechar a câmera quando não estiver falando, para reduzir o tempo de concentração na própria imagem, além de poder fechar os olhos por alguns instantes e se concentrar somente no áudio transmitido e dar uma esticada no corpo. 

Adicionalmente, existem algumas formas de melhorar a experiência em videoconferências que eu gostaria de compartilhar. Uma delas é utilizar, se possível, fones de ouvido sem fio. Isso permitirá que você tenha mais mobilidade para se locomover para tomar uma água, se esticar ou ir ao banheiro, sem perder conteúdo. É uma boa prática avisar à audiência, ou ao apresentador, do seu movimento. Lembre-se que se trata de uma expectativa bilateral de interação, a menos que você esteja assistindo a um Webinar (estilo de reunião em que a audiência não está habilitada pelo aplicativo a falar simultaneamente com o locutor).

Sempre que estiver se sentindo fatigado, avise que vai precisar manter a câmera fechada. Além de todo o stress reportado acima, o locutor tende a sentir que seus esforços não estão sendo reconhecidos se não houver uma interação mínima. Portando, comunique-se da melhor forma que conseguir, respeitando o seu corpo e suas necessidades. 

Sobre o mosquitinho no olho, precisei me desconectar naquele dia e fechar os olhos por algumas horas e atender ao clamor do meu corpo por um período de desconexão total de qualquer tela. Depois dessa experiência, passei a me permitir ficar com a câmera desligada em alguns momentos para me preservar. Pedi desculpas à audiência pela “rudeza” da câmera fechada, mas precisava de um descanso ocular. O corpo retribuiu e estamos sem novos casos de “mosquitinho” no olho desde então. Cuidem-se, caros leitores!

Paula Silva

Consultora de Tecnologia na ThoughtWorks 

Psicóloga formada pela Newton Paiva em 2020

Artigo citado:

RAMACHANDRAN, Vignesh. Stanford researchers identify four causes for “Zoom fatigue” and their simple fixes. Stanford News. Fev, 2021. Disponível em: https://news.stanford.edu/2021/02/23/four-causes-zoom-fatigue-solutions/

Link para participar da pesquisa de mensuração de Fatiga de Zoom: https://stanforduniversity.qualtrics.com/jfe/form/SV_5w2JruIAQzOgiTI

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